segunda-feira, 26 de outubro de 2009

W.L.


Enquanto uma moça, aparentemente loira e alinhada de vinte e poucos anos aguardava o elevador em seu horário de almoço, um sr, de cabelos ralos e 90% alvos a abordava com a voz de Cid Moreira:


- As pessoas andam desacreditadas com a vida não acha? Desanimadas..


- (Hein?) rs, é.


- Agora vc veja: se uma jovem disesse que está apaixonada por um sr de sessenta e poucos anos, vc acha que ele iria acreditar?


- (cara de indiferença e com a sobrancelha esquerda arqueada)


- rs, pois bem. Eu não iria. Acreditaria em minha esposa de 54 anos, gordinha e cansada. E eu não a trocaria por nenhum rostinho bonito, sabe pq?


(Ela sentiu um tom de desdém, mas deixou pra lá.. era irrelevante. E, mostrando-se curiosa para não parecer arrogante - afinal de contas, sempre aprendemos com os mais velhos.. (sabedoria e abobrinhas) - ela indagou):


- Pq?


(O elevador abre suas portas. Entraram, o elevador estava cheio)


- Pq nos apaixonamos pelas atitudes das pessoas diante de nós. Uma mulher jovem e bonita é o que todo homem quer.. mas, aquela que o compreende, que é cúmplice de suas escolhas, essa, é a dona de seu coração.


- Não sei. Talvez. Eu costumo dizer aos que me permitem: Case-se com quem vc tenha o que conversar. Pq um dia a beleza vai embora e vc terá assunto.


(O sr balançou a cabeça negativamente e ainda com as sobrancelhas frizadas de negação disse como quem manda um filho lavar as mãos antes de jantar):


- Quando se ama, a beleza NUNCA vai embora.*


(E muda de assunto puxando um lencinho de bolso e apalpando a testa)


- Vc trabalha aqui?


- Sim.


- ... Eu trabalho aqui ao lado. Meu escritório é esse ó. Vc está em que período?


- rs, não sou estudante de direito, sou formada em Marketing. Administração.


(Com um "Aahh.." sonoramente disperso e denunciando sua decepção, o vovô continuou a sessão de questionamentos e dessa vez, com a pergunta clássica entre os advogados):


- Ah, pq não estudou direito?


(Sem querer mostrar arrogância, foi singela - sem preconceito algum):


- Não faz muito meu gênero.


- Ah sim..


(Após o vago 'ah sim" do sr de cabelos brancos, o assunto havia terminado, mas aquela frase* não saia de sua cabeça, então pensou: "Vou escrever isso";

E o silêncio de seus pensamentos foi quebrado pelo "Píím" da chegada ao térreo):


E como quem esquece as chaves de casa no meio do caminho, ela disse ainda meio distraída:


- Ah, prazer.. Pamella!


- Prazer, filha. Gabriel.



(Realmente.. preciso escrever sobre isso) - pensou;

2 comentários:

  1. Gostei do vovô, concordo com ele.
    Mas a voz do Sid M. sempre me asssta, não tem pra onde correr.

    Boa semana ;)

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