Enquanto uma moça, aparentemente loira e alinhada de vinte e poucos anos aguardava o elevador em seu horário de almoço, um sr, de cabelos ralos e 90% alvos a abordava com a voz de Cid Moreira:
- As pessoas andam desacreditadas com a vida não acha? Desanimadas..
- (Hein?) rs, é.
- Agora vc veja: se uma jovem disesse que está apaixonada por um sr de sessenta e poucos anos, vc acha que ele iria acreditar?
- (cara de indiferença e com a sobrancelha esquerda arqueada)
- rs, pois bem. Eu não iria. Acreditaria em minha esposa de 54 anos, gordinha e cansada. E eu não a trocaria por nenhum rostinho bonito, sabe pq?
(Ela sentiu um tom de desdém, mas deixou pra lá.. era irrelevante. E, mostrando-se curiosa para não parecer arrogante - afinal de contas, sempre aprendemos com os mais velhos.. (sabedoria e abobrinhas) - ela indagou):
- Pq?
(O elevador abre suas portas. Entraram, o elevador estava cheio)
- Pq nos apaixonamos pelas atitudes das pessoas diante de nós. Uma mulher jovem e bonita é o que todo homem quer.. mas, aquela que o compreende, que é cúmplice de suas escolhas, essa, é a dona de seu coração.
- Não sei. Talvez. Eu costumo dizer aos que me permitem: Case-se com quem vc tenha o que conversar. Pq um dia a beleza vai embora e vc terá assunto.
(O sr balançou a cabeça negativamente e ainda com as sobrancelhas frizadas de negação disse como quem manda um filho lavar as mãos antes de jantar):
- Quando se ama, a beleza NUNCA vai embora.*
(E muda de assunto puxando um lencinho de bolso e apalpando a testa)
- Vc trabalha aqui?
- Sim.
- ... Eu trabalho aqui ao lado. Meu escritório é esse ó. Vc está em que período?
- rs, não sou estudante de direito, sou formada em Marketing. Administração.
(Com um "Aahh.." sonoramente disperso e denunciando sua decepção, o vovô continuou a sessão de questionamentos e dessa vez, com a pergunta clássica entre os advogados):
- Ah, pq não estudou direito?
(Sem querer mostrar arrogância, foi singela - sem preconceito algum):
- Não faz muito meu gênero.
- Ah sim..
(Após o vago 'ah sim" do sr de cabelos brancos, o assunto havia terminado, mas aquela frase* não saia de sua cabeça, então pensou: "Vou escrever isso";
E o silêncio de seus pensamentos foi quebrado pelo "Píím" da chegada ao térreo):
E como quem esquece as chaves de casa no meio do caminho, ela disse ainda meio distraída:
- Ah, prazer.. Pamella!
- Prazer, filha. Gabriel.
(Realmente.. preciso escrever sobre isso) - pensou;






